quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Wicked Game - Chris Isaak




Jogo Malvado

O mundo estava queimando,

ninguém podia me salvar exceto você

É estranho o que o desejo

faz as pessoas tolas fazerem

Eu nunca sonhei que eu conheceria alguém como você

E eu nunca sonhei que eu precisaria de alguém como você



Não eu não quero me apaixonar

(Esse mundo sempre partirá seu coração)

Não eu não quero me apaixonar

(Esse mundo sempre partirá seu coração)

por você

(Esse mundo sempre partirá seu coração)



Que jogo malvado pra se jogar

Para me fazer sentir desse jeito

Que coisa malvada pra se fazer

Para me fazer sonhar com você

Que coisa malvada pra se dizer

Você nunca se sentiu desse jeito

Que coisa malvada pra se fazer

Para me fazer sonhar com você



Não eu não quero me apaixonar

(Esse mundo sempre partirá seu coração)

Não eu não quero me apaixonar

(Esse mundo sempre partirá seu coração)

por você



O mundo estava queimando,

ninguém podia me salvar exceto você

É estranho o que o desejo

faz as pessoas tolas fazerem

Não e eu nunca sonhei que eu amaria alguém como você

Eu nunca sonhei que

perderia alguém como você



Não eu não quero me apaixonar

(Esse mundo sempre partirá seu coração)

Não eu não quero me apaixonar

(Esse mundo sempre partirá seu coração)

por você

(Esse mundo sempre partirá seu coração)



Não eu

Essa garota sempre partirá seu coração

Essa garota sempre partirá seu coração

Ninguém ama niguém

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Aforismos do ano passado (não assumo nenhuma responsabilidade por eles)



I. Não existe rebelde sem causa, toda rebeldia é fruto de uma exuberância e dinamismo vital que visa à renovação, de uma eterna necessidade da vida de fazer infinitas tentativas pelos mais variados e imprevisíveis caminhos e possibilidades. Toda justificação da rebeldia é posterior a essa causa suprema e primordial e é motivada por uma prestação de contas às exigências da sociedade. Assim, toda rebeldia que procura justificar a si mesma é incompleta, visto que acredita dever explicações àquilo mesmo que se rebela.



II. Poder é aquilo que nos torna livres. Toda outra forma de poder é uma armadilha para escravizar ambiciosos. A liberdade é o poder.



III. Descobri o porquê de chamarmos uma comida de “chocha” quando essa está insossa ou sem viço: A palavra “chocha” é uma onomatopéia da língua japonesa... E língua é o que os japoneses não têm. Seus pratos podem até ser uma boa entrada ou curiosidade gastronômica, mas estão longe de propiciarem uma refeição! Com isso se explica também por que se tornaram um povo tão disciplinado: sua mesa nunca lhes foi fonte de prazer.



IV. Etiqueta na mesa – Algumas etiquetas originaram-se de um refinamento do paladar e, por isso, devem ser mantidas: como aquela que manda que jamais devemos cortar o alface, mas sim fazer um pacotinho de sua folha com o garfo; de fato, assim é exigido pela lógica – poética – do paladar, visto que o sabor muito sutil do alface jamais seria aproveitado em toda a sua potencialidade senão desse modo. – Aliás, nada é mais repugnante do que essas pessoas que adoram esquartejar a sua comida! Estraçalham o macarrão, em vez de enrola-lo no garfo! Fazem picadinho de sua carne, em vez de corta-lo à proporção que se come! –. Outras etiquetas, por não se derivarem de modo algum das exigências do paladar, e muitas vezes lhe serem mesmo contrárias, devem ser totalmente abolidas: é o caso da regra segundo a qual não devemos lamber o prato depois de satisfeitos – e como desejamos fazê-lo quando um prato verdadeiramente nos conquista! Faze-lo é a mais honesta forma de reconhecimento e quem o ousasse fazer por mera gentileza seria traído pela própria expressão de sua face; por isso, vale mais que aplausos ou mil palavras elogiosas.



V. O solitário primeiro se afasta das relações com estranhos, ele demanda certa intimidade para que se sinta compreendido. Depois, foge das relações íntimas, sentindo-se impotente para sustentar amizades – na medida que seus íntimos se relacionam com estranhos. Por último, ele já não consegue sequer estar em meio às pessoas, pois sente a sua solidão em evidencia; busca abrigo, então, nas sombras, longe da visão dos homens.



VI. O homem que nasceu para realizar algo e não o faz a de fazer todas as outras coisas de forma fracassada.



VII. O dom, quando ignorado, converte-se num demônio amante do erro.



VIII. O misticismo é a sabedoria da patologia.



IX. Entre todas as experiências a do êxtase artístico é, ao mesmo tempo, a mais digna e a única impossível de ser compartilhada. Essa contradição irreconciliável é a real causa da perdição das almas intensamente artísticas.



X. O homem afeito ao sublime a de sentir com o mais mortal dos tédios os períodos de sua ausência.



XI. O grande problema que enfrenta o escritor ao mostrar seus textos para conhecidos é que esses, visto que o conhecem, são automaticamente levados a associar o conteúdo dos textos à própria pessoa do escritor; e isso impossibilita o efeito de identificação tão indispensável para despertar qualquer sentimento mais forte e profundo para com o texto.



XII. Excetuando a exigência semiótica do eu-lírico na poesia, esse serviu aos poetas por duas razões – uma elevada e sincera e outra baixa e mentirosa: a primeira é aquela que permite ao poeta exprimir um ponto de vista e não se reduzir a ele, i.e., expressar uma perspectiva sem se comprometer inteiramente com ela; a segunda seria aquela de que o poeta, supostamente, não possuiria comprometimento algum com o que foi dito no poema, como se o seu enunciado não partisse de uma experiência, real ou íntima, do poeta. A primeira razão é produto de uma complexidade do espírito e anseio de liberdade, a segunda é covardia.



XIII. A cada nova inspiração, que impele ao início de uma nova obra, o artista sente-a como uma confirmação definitiva do seu triunfo: “É agora!”, “Finalmente!”, “Obrigado Deus por ter me escolhido!”... Mas tão logo a obra é concluída – se é que chega a sê-lo –, a inspiração se esvai e ele se vê novamente mergulhado na incerteza e insatisfeito com sua obra: “Ainda não foi dessa vez!”. Essa insatisfação, no entanto, é condição de possibilidade de uma nova inspiração.



XIV. O homem comum pensa de forma democrática a normatividade de suas ações: "Posso fazer tal coisa?” A resposta é sim se tal coisa puder ser feita por todos os outros, "Posso desdenhar a política? Não. Porque se todos os homens desdenhassem a política a sociedade entraria em colapso". Já o homem distinto pensa: "Tenho mérito para fazer tal coisa?", "Sou suficientemente bom/talentoso/distinto para me comportar assim?" Ele não precisa basear a normatividade de suas ações nos outros porque sabe que os outros continuarão pensando de maneira democrática e, conseqüentemente, não fazendo aquilo que ele se permite fazer.



XV. Hoje, é o pensamento democrático que permite o pensamento aristocrático. E isso não é ilícito senão para os que pensam democraticamente. Por isso, muitos homens essencialmente aristocráticos preferem defender valores democráticos: numa sociedade sem escravidão, só uma massa bem comportada permite que alguns indivíduos não se comportem como o esperado. Só mesmo um ser tão louco como eu, tão filósofo, para denunciar as próprias artimanhas das quais depende. Mas, como nos é próprio, permito-me essa honestidade pois sei que os demais aristocratas não farão aquilo que me permito fazer.



XVI. Se os artistas pensassem segundo o imperativo categórico, não haveria artistas.



XVII. Queres consolar uma pessoa que está se sentindo diminuída? Fale de outra em situação pior, de preferência uma que ela conheça. Queres diminuí-la ainda mais? Então diga-lhe que não há razão para ela se sentir assim e faça-lhe elogios com marcas de pessoalidade: “mas eu te acho inteligente”, “para mim tu não foi inconveniente”, “não me pareceu que tu agiste de forma esquisita”...



XVIII. Queres ter o ego agraciado? Então trate de agraciar o ego de um homem. Nunca somos mais propensos a “reconhecer”, por exemplo, a inteligência de alguém do que quando esse já reconheceu a nossa.



XIX. Em virtude do fim da separação ontológica do homem em relação aos demais animais, seja ancorada nos dogmas cristãos que concebem o homem como “imagem e semelhança de Deus”, seja na distinção aristotélica do homem como único animal racional, ou seja, com o advento da naturalização do homem na modernidade, torna-se crescente e mesmo modismo tendências vegetarianas e a defesa dos direitos dos animais. O que não se costuma perceber é que com o ocaso da religião e do aristotelismo não são os animais que ascendem ao nível dos homens, mas os homens que descem ao nível animal. A conseqüência lógica das premissas modernas não é que não devemos mais comer ou matar outros animais, mas que podemos, também, matar e comer homens.



XX. Contra aqueles que procuram defender características inerentemente humanas, o historicismo atual pensa ser capaz de refuta-los apenas dizendo: “mas isso é essencialismo!”. Como se o essencialismo fosse algo, por si mesmo, insustentável; não uma orientação de pensamento, mas algo pejorativo, a própria negação do pensamento. Com isso, no entanto, os historicistas apenas comprovam o quão são vítimas dos preconceitos de seu tempo histórico, i.e., como o seu “historicismo” é, no fundo, pouco historicista. Da mesma maneira, acreditava-se, na Idade Média, que um homem estava refutado caso se pudesse acusar sua opinião de heterodoxa ou antiaristotélica. A isso se acrescenta que a genética afastou qualquer mácula que o essencialismo poderia carregar consigo, tornando-o não só possível, mas muito provável. Se essa nova situação ainda não repercute no senso comum dos estudantes de ciências humanas isso se deve ao fato de que esses são sempre atrasados em relação ao fazer verdadeiramente científico.



XXI. Contra aqueles que procuram defender o egoísmo, a cobiça e o ódio mútuo entre os homens como características inerentemente humanas – e a decorrente situação de “guerra de todos contra todos” numa hipótese lógica de um “estado de natureza” – costuma-se sempre apelar às pequenas tribos indoamericanas. O que parecem se esquecerem os que fazem uso desse contra-exemplo é que essas não se encontram de modo algum em estado de natureza e tão pouco próximas dele – e é nesse ponto que poderia se acusar Hobbes de erro e de vítima de sua realidade histórica . Embora não exista nesses uma constituição e/ou leis na forma convencional européia, existe neles uma mitologia e uma religião que, como lhes é próprio, oferece uma normatividade para o comportamento e a ação dos seus membros, i.e., eles possuem um governo do tipo tradicional. Assim, a melhor forma de verificar se esses povos não possuem naturalmente as características supracitadas é averiguando se existe em seus mitos fundadores e religião, algum mito exemplar contra a ação egoísta, cobiçosa, etc... Uma cultura não formularia um mandamento tal como “amai o teu próximo como a ti mesmo”, caso seus membros fossem naturalmente impelidos a isso, do mesmo modo que não há notícias de um mandamento que exorte “copulai”. Somente quando algo oferece risco para a coesão social é que nascem mitos exemplares, mandamentos e leis que se lhe oponham.



XXII. Não só as pequenas tribos indoamericanas não servem de contra-exemplo contra a posição essencialista do egoísmo humano devido a sua religião, mitologia e tradição – até que uma pesquisa empírica comprove a ausência de mitos exemplares no que se refere ao egoísmo –, mas também devido ao número bastante restrito de membros dessas tribos, normalmente em elo de parentesco – e o egoísmo não é necessariamente um egoísmo individual, mas familiar –, além do fato da organização política dessas tribos ser baseada na autoridade patriarcal, onde é conhecido o recurso à ameaça da castração contra os filhos/súditos que buscam mais poder. Mas tão logo determinada sociedade cresce, os elos de parentesco vão se tornando menos nítidos e com eles a autoridade patriarcal; de tal modo que os egoísmos individuais sentem-se, então, livres para a disputa pelo poder. É nessa altura de desenvolvimento que passam a se fazer necessários leis e medidas punitivas e surge o governo civil. Isso aconteceu não só na Europa e Ásia, mas com o Império do Mali na África e, nas Américas, com os Incas, Maias e Astecas.



XXIII. Não há mito exemplar contra o egoísmo – e o orgulho! –, contra a busca pelo poder e o desrespeito à autoridade mais representativo do que o de Lúcifer. Com ele a ameaça iminente da castração real torna-se ameaça transcendente de castração espiritual.



XXIV. Grande parte dos estudantes das ciências humanas é indigna de crédito porque são totalmente incoerentes: pretendem submeter todo o conhecimento a esfera subjetiva e tomam seus valores morais como objetivos.



XXV. O que muitas vezes sucede aos estudantes das ciências humanas é uma total ignorância das naturais, o que os faz deterem-se muito às pequenezas humanas e ignorarem a posição dessas em relação ao restante. O que é cinco mil anos de história humana em relação aos três bilhões de anos de evolução da vida na Terra? E o que se dirá então em relação aos cerca de quinze bilhões de anos do universo? O que é o planeta Terra em relação ao restante do cosmos? E o homem? Poeira cósmica!



XXVI. Não conheço maior negação à pluralidade do que a ideologia do pluralismo. A ideologia do pluralismo só aceita em seu seio, pluralistas. A lei natural e filosófica da pluralidade, por sua vez, mais que aceitar, deseja, não só pluralistas, mas também antipluralistas. A barulhenta e exaltada defesa da diversidade, hoje na moda, é, no fundo, rancor contra a diversidade.



XXVII. É comum em nossos dias os indivíduos que apóiam o pluralismo e o multiculturalismo se dizerem de “oposição”. O irônico nisso é que pluralismo e multiculturalismo são justamente a última versão do pensamento capitalista e globalizado, aquele que deseja expandir seu mercado – e para isso respeitar o seu cliente: “o cliente tem sempre razão!”. Qualquer cultura genuína a de negar a outra na exata medida que se afirma.



XXVIII. No aforismo anterior podemos perceber o quanto a cultura ocidental ainda é genuína: defendendo o multiculturalismo próprio aos seus interesses, nega o monoculturalismo das outras.



XXIX. Que a cultura ocidental seja superiora em poder em relação as demais é algo incontestável, a história e os fatos nos atestam; e que esse poder venha a nos levar a autodestruição em nada contradiz a nossa afirmação, pois como diziam os estóicos “o homem é superior aos demais animais porque é capaz de tirar sua própria vida”.



XXX. Comemoramos com nossa boa consciência o fato das disciplinas de História e Literatura, tanto Africana como Indígena, terem sido incorporadas ao plano de ensino dos níveis fundamental e médio da educação brasileira, acreditando que isso representa um passo adiante na luta contra o etnocentrismo europeu. “História” e “Literatura”, no entanto, não são conceitos por demais europeus para que sejam transplantados à culturas a eles estranhas? A tradição oral desses povos não passa a milhas de distancia da pretensão, respectivamente, científica e artística de tais conceitos? Não? Então, por que tanta fúria contra o valor científico de Homero? À parte a ilusão anti-eurocentrica, com certeza essas novas disciplinas são importantes para que compreendamos a formação da identidade brasileira, não tanto, é verdade, como são importantes o Grego e o Latim para a formação da identidade humana atual.



XXXI. Ao contrário do que costumeiramente se pensa, a paranóia não constitui em insanidade. Está mais sujeito a ela quanto mais racional for o homem.



XXXII. Temos todas as razões do mundo para desconfiar dos outros, mas para confiar neles apenas um vago desejo, algo muito mais produto dos afetos do que da razão.



XXXIII. Há dois tipos de loucos, os que são pouco racionais e os que o são em excesso.



XXXIV. A única loucura que podemos atribuir à paranóia consiste na loucura própria de ser excessivo e sistematicamente racional. Portanto, contra a paranóia é necessária certa dose de loucura.



XXXV. Se fosse dada ao paranóico a possibilidade de direcionar suas desconfianças, por certo que teríamos grande avanço na Ciência e Filosofia. O paranóico possui as duas virtudes mais caras ao pensador: a suspeita e o ruminar incessante.



XXXVI. O homem paranóico descobre verdades que permanecem imperceptíveis aos demais. Sua perdição está em colocar essas sacadas geniais a serviço de suas absurdas construções fantasmáticas.



XXXVII. Se fosse a intensidade dos sentimentos que fizessem de um homem santo ou libertino, o juízo final teria grandes problemas conosco.



XXXVIII. Os homens possuem a necessidade de rirem-se uns dos outros.



XXXIX. Não dê importância àqueles que te censuram por rir das deficiências dos outros; eles só querem deixar a tua vida tão triste quanto a deles.



XL. Não há nada que nos faça rir mais do que ver o próximo em uma situação ridícula e embaraçosa, pois a diversão não é isenta de egoísmo e as deficiências do outro são sempre uma agradável elevação de nós mesmos; isso pode ser comprovado vendo em que circunstâncias os macacos riem e explica a tão comum rabugice dos puritanos e moralistas.



XLI. Um homem não é superior por não rir dos outros, mas o é quando além de rir dos outros é capaz de rir de si mesmo.



XLII. O que para a grande maioria, nunca tomada por profunda indagação filosófica, é uma obviedade, para aqueles desgraçados por ela é – ao menos – um passo firme e seguro num mundo cheio de incertezas.



XLIII. A existência da aposta demonstra convicções não baseadas em razões. Não somos capazes de dar razões para determinada crença, mas, ainda assim, estamos dispostos a apostar valores altíssimos por ela. Isso comprova não só que o domínio dos motivos é muito mais amplo do que o das razões, como também que alguns motivos são tão ou mais confiáveis que as razões.



XLIV. Muitos motivos são razões esquecidas. Se alguma vez eu cheguei a determinada convicção através de um raciocínio, e se o tempo fez com que eu me esquecesse das razões que o fundamentavam, agora essa convicção me aparece apenas amparada em motivos, mas ainda eles me são suficientes e totalmente conclusíveis.



XLV. Um homem com muitas convicções e poucas razões que as sustentem é geralmente mal visto. De fato, essas criaturas cheias de certezas – ideologias e fé – não abertas ao escrutínio crítico e a defesa bem argumentada são realmente desprezíveis. Mas é preciso um cuidado para que não cometamos uma injustiça: devemos averiguar se essa pessoa não é apenas alguém com a memória fraca; devemos ver, também, se com as situações presentes esse individuo não é capaz de formular raciocínios bastante sofisticados, amparando suas posições recentes em razões convincentes; se esses pontos se confirmarem verídicos, esse indivíduo de modo algum é digno de descrédito e é de bom tom levar em consideração os seus motivos.



XLVI. Equívoco na avaliação corriqueira do quociente intelectual – Um homem com uma memória ampla, ainda que vagaroso no assimilar e estreito no entendimento, goza, muitas vezes, de uma reputação de mais inteligente do que um homem de grande entendimento e rápida assimilação, porém com uma memória parca. Pois que o primeiro lembra daquilo que assimilou e compreendeu, ainda que com grande dificuldade e penoso esforço, já o segundo pode parecer, muitas vezes, um charlatão ou um pedante que diz saber mais do que verdadeiramente sabe, comportando-se tal como se soubesse, mas que quando convidado a apresentar suas razões não o faz ou o faz de maneira desastrosa. Se interrogados por terceiros a respeito da verdade ou falsidade de A, supondo que os raciocínios incorretos e pouco penetrantes do primeiro o levaram a crer em A, e o segundo chegou, conforme ao seu raciocinar elaborado e arguto, a saber não-A; é muito provável que os terceiros se inclinem a acreditar no primeiro, pois esse conseguiu apresentar as suas razões – ainda que débeis – de crer em A, enquanto que o segundo foi incapaz de lembrar suas – corretas – razões. Esse último não será tomado de profundo desprezo por todos os “terceiros”? Por todos aqueles que querem ser persuadidos por outros a respeito das coisas que não são capazes de pensar com suas próprias cabeças? E já por toda a comunicação e crédito ao outro? Com que revoltada agonia já não ouvimos ele praguejar, pregado em sua cruz: “Oh Mnemósine! Por que me abandonastes?”



XLVII. Aos que são incapazes da pura contemplação das idéias e não tem por elas, em si mesmas, amor suficiente, deveria ser vetado o estudo da Filosofia. Até para a defesa do sensualismo tais atributos são requisitos indispensáveis. Filosofia é e será sempre idéias e amor as idéias.



XLVIII. Os estudantes de Filosofia de hoje carecem do próprio sangue da mesma, aquele que correu nas veias de Sócrates e o condenou a tomar cicuta, que queimou Giordano Bruno no Tribunal da Santa Inquisição e que condenou Schopenhauer a ter como único companheiro o seu poodle, Atma. Falta-lhes honestidade intelectual, fidelidade para com os próprios olhos e a decorrente desobediência e disponibilidade para correr riscos e cometer sacrifícios. Sua preocupação central é com a profissão, não com a vida. E tudo o que eles mais desejam, sucesso acadêmico, é justamente aquilo que mais impossibilita o sucesso filosófico.



XLIX. Como arranjar forças para tais riscos e sacrifícios senão por meio da apreciação estética do Filósofo?



L. A psicose faz com que o homem deixe de reconhecer os significados que emanam da realidade e passe a ser um significador da realidade. É preciso ainda outro deus?



LI. Diálogo:

– Eu sou!

– Mas tu mudas. Acaso tens medo da mudança?

– Se tivesse, não seria.



LII. Dizer que o trabalho é uma propriedade nossa ("o trabalho é a única propriedade do proletariado" Marx) é dizer que o corpo é nossa propriedade, visto que o trabalho nada mais é senão potência (conatus) do corpo. Mas dizer que o corpo é uma propriedade nossa é supor que existiríamos sem ele, o que não é muito consistente com o materialismo e ateísmo marxista. Nosso trabalho só pode ser propriedade de outro, uma vez que só a outro é permitido ter posse de nós mesmos (dos nossos corpos).



LIII. Não há nada mais reacionário que a posição revolucionária, sempre que o capitalismo age em nome do “progresso”, a oposição reage.



LIV. Os pais possuem culpa sim por aquilo que seus filhos se tornaram. Mas isso não é motivo de revolta, afinal eles não possuem culpa alguma de terem culpa.



LV. Antes do conhecimento da genética e da bioquímica, antes mesmo da própria química, quando os seus processos eram vistos como alquimia, que não deixava de conter em si certa dose de magia e sobrenaturalidade – porque eram paranormais –, é natural que se desse alto crédito ao arbítrio humano, afinal haviam homens, por exemplo, que levavam uma vida asceta, de total abstenção sexual. Aos outros homens, cujo instinto sexual era forte, como na maioria dos casos (e, portanto, como na “normalidade”, entendendo “normalidade” como “generalidade”), essa “escolha” não podia lhes passar indiferente, é certo que eram tomados por admiração, pois que as suas necessidades sexuais eram-lhes causadoras de inúmeras atribulações e sem tais necessidades todas essas atribulações cessariam. Não podiam deixar de ver nisso então certo heroísmo de escolha e expressão de força de vontade e, avaliando a atitude ascética do outro segundo a potência com que o instinto sexual pulsava em si mesmos – pois que eles não poderiam ter acesso a outra potência que não as suas próprias –, julgavam ainda que tal homem tinha algo de sobrenatural e divino (visto que tinha de paranormal, de diverso da generalidade) e tal raciocínio se dava porque, para eles, seria de fato sobrenatural que vencessem o próprio instinto sexual. Pois bem, assim como raros processos químicos, “paranormais” poderia se dizer, são hoje admitidos dentro das leis naturais, não possuindo nada de sobrenatural, também que alguns indivíduos de uma espécie não possuam características gerais da mesma – ou mesmo da própria vida – é algo admitido pela biologia como natural – enquanto disfunções hormonais e bioquímicas que respeitam aquela vontade da natureza, de que falam os neodarwinistas, de procurar a maior diversidade de caracteres dentro de uma espécie. Vejamos os padres: a maioria, cujo instinto sexual é forte, desrespeitam o celibato; outros, com a mesma constituição fisiológica, mas cuja fé oferece-lhe resistência, tornam-se sexualmente reprimidos e acabam cometendo atos de pedofilia – ele se identifica com o infantil porque o sexo tem-lhe qualquer coisa de feio e de proibido (como para as crianças) –; por fim, os “exemplares”, mesmo que sejam acometidos pelo desejo sexual, esse não é forte, de tal modo que, mesmo que a ele pareça uma tarefa árdua vence-lo “agarrando-se a Cristo”, não lhe é impossível, dado a pouca intensidade do seu libido. E a esses últimos as carolas veneram como exemplos de fé.



LVI. Muitos repudiam o determinismo porque pensam que com ele não poderíamos mais atribuir valores às ações e ao caráter de um homem, visto que esse não teria responsabilidade ou mérito algum naqueles. Ora, devotamos toda a nossa admiração à beleza e sempre estamos dispostos a valorizar a inteligência ainda que seus portadores não tenham mérito algum em os possuírem.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Não há outro caminho

"Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho."

Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Averno 2005.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No Reino da "graça"

Se “graciosa” chamamos a donzela com jeito e graça
E palhaço que sabe fazer graça, dizemos “engraçado”
Lúcifer é por rabugice ou descompostura desgraçado?



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fotos

I'm running free yeah!

Macarrão ao molho bronze (autoria própria)

Uma poesia viajante

Eu, antes da crise dos 40

Eu, depois das crise dos 40 I

Eu, depois da crise dos 40 II

Gastrônomo

Minha gata Shigua


Sid Vicious em POA

Marilyn Manson?

Rosbife, arroz suiço e vinho branco de mesa

Minha mãe e eu

Minha irmã antes de virar colorida

Sim ou não?

"O menor dos felinos é uma obra prima"   Leonardo da Vinci

Lazanha e um Almadén Tannat

Um dia perfeito: inverno, sorvete e praça da redenção

"O lar é o mais cretino dos túmulos"   Nelson Rodrigues

14 anos: up the irons!



terça-feira, 14 de setembro de 2010

Obrigado Grande Mãe

Tenho um elo místico com os animais
















Estou em comunhão com a natureza















Admiramo-nos mutuamente por uns 5 minutos. Nunca aconteceu com você? É só para os escolhidos...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Amor próprio

     Reaprender a se amar, redescobrir o valor de si mesmo, reconciliar-se com o seu Eu mais íntimo e imutável: sublime tarefa que tenho realizado como atividade lúdica - meios diletantes para fins gloriosos e "absolutos": eis a minha fórmula para o viver! Se cheguei ao total desprezo por mim mesmo, se por tempos mantive-me na auto-renuncia, isso é porque já me alcei a dez mil pés acima de mim mesmo. O desprezo é o privilégio dos que sentem vertigem. Mas do fato de eu não me dar valor não significa que eu não o tenha, muito pelo contrário... Tanto menos paga o ourives pelo ouro quanto mais o tem. Além disso e preponderantemente, não tem valor de uso o próprio usador - ao menos que se deixe usar, mas isso não é próprio senão aos dotados de qualidades femininas... -; é só nas relações que se estabelece um valor, e esse valor é, sempre, valor de troca - disso todos tinham ciência na época de Homero, quando ainda não havia a relação com o Pai. Os homens são por demais inseguros para reconhecer valor naquilo que ainda não foi avaliado; o que dizer, então, daquilo que foi avaliado negativamente por um seleto avaliador? Mas cuidado quando esse último é o próprio objeto de sua avaliação: seus critérios e bom gosto não satisfazem a si mesmos.
     Para a reconciliação de si faz-se necessário acima de tudo afastar a idéia de que a liberdade consiste em ser aquilo que se quer - isso é escravidão -, pois ser livre é querer ser aquilo que, desde sempre, se é. Depois disso, depois da jubilosa afirmação incondicional do Eu, surge espontaneamente, e como que num estado de graça, o desejo de cuidar de si. E cuidar de si é cuidar do seu corpo, ou melhor, do corpo que você é. Uma loção hidratante se transforma, então, numa oportunidade de se fazer carinho, e esse carinho, um sincero pedido de desculpas. Daqui surge a minha fascinação pela Mulher. Fascinação é mais que o desejo de posse, que um superficial reconhecimento da beleza que se volta todo para o sexo, para a carne e para os órgãos sexuais. Fascinação é, sem dúvida, sexo. Não é amor. Orienta-se para a carne, não para a alma, mas a carne é sublimada, a beleza sacralizada. É sexo num sentido muito mais amplo, quase espiritual, onde cada folículo da pele se torna uma divindade própria digna de reverencia. E o maior segredo da Fascinação é não somente querer ter, mas ser. A mulher, na sua vaidade, no seu querer bem a si mesma, nos lábios que fazem um biquinho que se torce para os lados só para disfarçar um sorriso de satisfação quando se descobre observada, revela a sua pericia no amor próprio, num egoísmo felino que justifica eternamente o termo "Gata".  
     Existem, porém, dois tipos de cuidados com o corpo: aquele que quer o melhor para si, que quer fazer surgir a sua mais bela forma possível; e aquele que quer se transformar num outro, que emana do ódio ou vergonha de si. No primeiro caso, o cuidado com o corpo é uma forma de carinho, de amor, no último, uma agressão. Cuidar do seu corpo, dedicar-se a si mesmo, proporcionar prazer aquele que é seu maior e inseparável companheiro, admirar-se no espelho, passar um protetor solar no rosto ao mesmo tempo em que o acaricia e o deseja. O Rosto, como diria Lévinas. O transcendente no imanente e o infinito contido dentro do finito; o fundamento, para esse filósofo, do comportamento ético. Quem acaricia um rosto acaricia uma alma.
      

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A chácara dos meus avós


             Só mesmo o homem da cidade para dizer que o homem do campo acorda com o cantar do galo. No campo, galos cantam a noite inteira, desregulados, e o colono não pode se dar ao luxo de prestar atenção a essa boemia cantoria. O homem do campo acorda, isso sim, com o despertar da natureza, quando os passarinhos começam uma nova festa pagã em homenagem ao deus Sol, plenos de alegria depois de uma escura noite de incerteza: “Voltará ainda o dia?”. Não que o homem do campo espere os passarinhos para levantar; ele não baseia o seu relógio na natureza, a natureza dentro dele é o seu relógio. O homem do campo está em unidade com a natureza e, independente da mudança das estações e dos fusos-horário, a natureza toda desperta quando o Sol lhes dá bom-dia.
            Comigo, criancinha urbana, a coisa era diferente. Acordava quando escutava o vozerio e o ruído de panelas na cozinha. Saia correndo, tomado da mais inocente alegria, até a cozinha para comer o carreteiro com café preto que meu avô preparava para os colhedores de uva. Não escovava os dentes nem limpava as remelas, pois vovô não dava importância alguma, toda aquela chatice de deveres ficava na cidade com minha mãe e as professoras. Quando me via, o velho de bombacha soltava um daqueles autênticos e contentes brados que só os homens do campo são capazes e me dava um abraço que me quebrava as costelas. Todos os trabalhadores me diziam “bom-dia!”, com aquela entonação que lhes é própria, e de pronto voltavam a sorver ruidosamente o chimarrão e a falar, como que cantando, dos seus assuntos. O carreteiro era de charque, feito em panela de ferro, em fogão a lenha e colher de pau. O fundo queimado meu avô sempre guardava para mim, embora ele também achasse aquela a melhor parte. A essa altura, umas seis e pouco da manhã, vovô já vertia o seu segundo copo de vinho, o que não tinha nada de anormal entre os agricultores de descendência italiana de Farroupilha. Quando ficava bêbado, era comum bater em minha vó, o que também não tinha nada de anormal. Nessas circunstâncias costumava  repetir: “O homem deve sempre bater em sua mulher, mesmo que ele não saiba por que está batendo, ela sabe por que está apanhando”. Mas esse não era meu vô, meu vô era um marido afetuoso e divertido, bom de fandango e trabalhador, e, o que era mais raro entre os “guascas” como ele, fiel; jamais violaria o juramento que fez na frente do padre. Doutra feita, numa de suas bebedeiras, correu de facão atrás dos meus primos mais velhos, que o provocavam; quanto a mim, ele nunca fez nada senão coisas boas, mas eu era o comportadinho da família. Quando se inventou o alcoolismo, foi que lhe disseram que estava doente; só então começou a se comportar como um: proibiram-no de produzir vinho e ele começou a beber escondido, da pura, nos botecos, e a  ser  encontrado caído nas ruas. Nessa época, vovó se apegou com toda força na religião, da qual sempre fora devota, até chegar ao fanatismo de uma velha carola. Isso não aconteceu porque ela apanhava de vez em quando de um marido que no mais era bom e alegre, mas só quando esse começou a adoecer porque descobriu que tinha uma doença.
            A minha memória, porém, é de épocas anteriores, época que minha vó rezava satisfeita e meu vô ria e dançava. Vovô era o melhor assador que conhecia: a picanha era sangrenta, a costela passada, a ovelha no ponto; e tudo com o sabor único da lenha de acácia negra. Se para os gaúchos em geral é um pecado um churrasco temperado com outra coisa além do sal grosso, para meu avô o pecado já começava usando-se carvão. Nas raras vezes que assava galeto, deixava as galinhas tortas de cachaça no dia anterior para amaciar-lhes a carne. Galinhas caipiras e bêbadas na salmoura de minha avó: a idéia de galeto ela mesma!
            Depois do carreteiro e do café preto, vovô e eu íamos cuidar da bicharada: abríamos o curral para o gado pastar; dávamos milho às galinhas; atirávamos pedaços de pão às carpas; colhíamos as verduras e legumes para o almoço e o que não prestava atirávamos aos porcos. Depois do mais divertido, vovô pegava na enxada e eu começava minha vida errante: ia até as parreiras ver os peões colhendo uva, depois voltava para “ajudar” meu vô na plantação, e, de pouco em pouco, ansioso, dava uma olhada em minha vó para ver se ela já tinha parado de rezar – a missa que a rádio aliança, a única estação religiosa da época, católica, transmitia diariamente e que vovó nunca “faltava”. Depois da missa, ela saía para tirar o leite do café e esse espetáculo, junto com a lida dos animais, eu jamais perdia. Naquela casa os horários eram outros, o que contribuía para o meu estado de êxtase permanente durante as férias. Se bem que, se há uma boa definição para a infância, essa é o estar em permanente estado de êxtase, onde tudo é novidade, alegria e fruição.
            O café da manhã estava na mesa lá pelas onze, meu avô chegava um pouco antes para tomar um mate e “prosear com a véia”. Embora o café fosse só para nós, a mesa parecia insinuar que todos os trabalhadores iriam invadir aquela porta, famintos. Pão caseiro, queijo colonial, salame, manteiga, morcilha, torresmo, schimier – de uva, é claro! –, mel e “leite da vaca”. Depois do café, vovô voltava  a pegar na enxada e vovó alimentava os cães – com a polenta que seu marido preparava de manhã cedinho junto com o carreteiro –, depois ela levava numa cesta o “almoço” dos colhedores de uva – o nosso café da manhã –, e, sem demora, voltava à cozinha para cuidar do nosso almoço. Até as quatro horas, quando o almoço estava pronto, eu brincava com os cães e os outros animais, ou ficava chateando o velho agricultor, perguntando-lhe o nome dos passarinhos, ou, se era verão, me atirava na cachoeira. No inverno, eu preferia ficar escutando a rádio aliança com minha vó, aquecido pelo fogão a lenha e admirado com sua devoção: contemplava a sua ladainha enquanto descascava aipim. Quando não tinha ninguém por perto, eu fazia algumas “artes”: atirava um cuscu contra um ganso para ver a natureza em ação; arrebentava minhocas; largava um gato no chiqueiro para ver seu arisco desespero com o alvoroço dos porcos...
            Depois do almoço, enquanto vovó lavava a louça, vovô e eu tirávamos a sesta. Quando acordava, ele não estava mais ali; batia-me então certo remorso – não é bem essa a palavra – muito comum na infância, que surge daquele sentimento de não sabermos se ainda é hoje ou se já é amanhã, somado ao arrependimento de ter desperdiçado dormindo o precioso tempo em que se poderia viver e brincar,  além de outros sentimentos muito estranhos e vagos, ruins e desnorteados, difíceis de explicar. Em seguida, encontrava minha avó cuidando das flores e começava a me recuperar: cuidar das flores era a sua maior fonte de prazer. Seus canteiros eram sempre coloridos e bem podados. Eu me entretia observando-as e perguntando pelos seus nomes, procurava as flores novas ou aquelas as quais eu havia esquecido o nome, o que era raro naquela época de memória fresca e de atenção toda voltada para o mundo ao redor, para a descoberta. Sim, eu havia sido um grande observador antes de me enterrar em mim mesmo! O gaúcho, por sua vez, no final da tarde, tratava de realizar a tarefa inversa do amanhecer: tocava o gado para o curral – ele brincava comigo: “toca gado!” –; prendia as meninas no galinheiro, etc. Quanto aos pavões, não era preciso fazer nada, empoleiravam-se na figueira e começavam a miar feito gatos tenores: essa é certamente uma das mais lindas cenas que o crepúsculo pode nos proporcionar. Também os patos, gansos e marrecos iam por sua própria conta até o açude, onde se colavam uns aos outros, com as cabeças embaixo das asas. À noite, vovô se dedicava inteiramente a mim: jogávamos canastra ou pife ou então íamos pescar e ele contava causos que me enchiam de medo – e como era gostoso aquele medo! –, causos que eram entrecortados por períodos de silêncio que duravam um longo palheiro. Era nesses momentos que eu sentia  a absoluta escuridão da noite contida no chirrear de uma coruja. Lá pelas onze horas jantávamos e depois nos preparávamos para ir dormir.
            Essa era a rotina inabalável da chácara de meus avós. Rotina que só se desfazia no sábado a noite, quando íamos ao CTG, ou no domingo, que costumava ter churrasco, pais, tios e primos. Havia também outra coisa que quebrava a rotina: os dias chuvosos. Esses eram incrivelmente mágicos e especiais, os trabalhadores não apareciam e ficávamos o dia inteiro na cozinha, jogando carta, tomando chimarrão, e ouvindo a rádio aliança. Foi num desses dias que meu avô falou algo que mudou para sempre minha sensibilidade: estávamos ambos olhando pela janela a chuva a cair nas flores, nas árvores e nas uvas, sentindo o cheiro da terra molhada, quando ele disse “Veja só como a natureza inteira está feliz”.   

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um surto?

Eles "sabem" muito e, ao mesmo tempo, sabem tão pouco. Conhecimento formal carente de conteúdo; vão palavrório: quem conhece por meio de definições, contempla o objeto da definição como a um sol, de baixo para cima. Quem conhece por meio da experiência - do pathos -, contempla as definições como Deus as suas criaturas, de cima para baixo. Essa é a razão de nosso esoterismo e de nossa rebelião contra toda democracia: A Filosofia, e com ela, o discurso racional-discursivo - e, portanto, compartilhável - foi a primeira investida rancorosa do vulgo contra os profetas e oráculos de outrora; a democracia dos estados contemporâneos a nossa derrocada. A nossa sabedoria é material, rica em conteúdo, plena de substancia, mas, no entanto, e por isso mesmo, desde o início condenada. Condenada porque não há conteúdo que se reduza a forma e substância que se deixe dizer; pois é justamente o que há de substancial na substância que não pode ser transformado em palavras. "Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não a permissão de falar sobre o que aprenderes". Diante dessa "habilidade", é impossível não alimentar as mais atrozes suspeitas: "minhas causas não seriam desculpas?". E a consciência dessa dificuldade prejudica sempre nossa autodefesa (a veemência, a segurança, a intrepidez e todos os demais adornos que servem muito mais a persuasão do que ao convencimento). Eis a razão de ser do provérbio "Quem fala não sabe, e quem sabe não fala". Mas de novo se nos ergue a possibilidade palpitante: "Não seriam nossas desculpas, causas?" E daí se segue uma paixão, uma consciência de missão, uma autoconfiança repleta de vitalidade, uma alegria juvenil, uma força no persistir, uma louca vontade de apostar, uma visão do triunfo iminente... Lançarei agora o maior argumento a favor de minha filosofia: Eu sou esse argumento!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma Temporada no Inferno - Arthur Rimbaud


"Antigamente, se bem me lembro, a minha vida era um festim, onde se abriam todos os corações, corriam todos os vinhos. Uma noite, sentei a Beleza no meu colo. - E a achei amarga. - E a xinguei. Armei-me contra a justiça. Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, meu tesouro foi confiado a vocês! Consegui apagar do meu espírito toda a esperança humana. Para estrangular toda alegria, dei o bote surdo da fera. Chamei os carrascos para, morrendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para sufocar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu Deus. Deitei na lama. Sequei no ar do crime. E preguei boas peças à loucura. E a primavera me trouxe o medonho riso do idiota. E ultimamente, estando quase ao ponto de dar a minha última nota falsa!, pensei procurar a chave do antigo festim, onde reencontrarei talvez o apetite. A caridade é esta chave. - Esta inspiração prova que sonhei. "Você continuará hiena, etc...", exclama o demônio que me coroou com tão amáveis papoulas. "Ganhe a morte com todos teus apetites, e teu egoísmo e todos os pecados capitais." Ah! peguei disto demais: - Mas, meu caro Satanás, vos conjuro, uma pupila menos irritada! e aguardando algumas pequenas covardias atrasadas, vós que amais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou instrutivas, vos destaco estas horrendas folhas do meu carnê de danado.

A gente não parte. Retoma o caminho, e carregando meu vício, o vício que me lançou raízes de dor ao meu lado, desde a idade da razão, e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta.
A quem me alugar? Que animal é preciso que adore? Que santa imagem nos agredirá? Que corações partirei? Que mentiras devo sustentar? Em que ânimo avançar?
Ah! Estou tão abandonado que ofereço à não importa que imagem divina os impulsos para a perfeição.
Nas estradas, por noites de inverno, sem morada, sem um abrigo, sem pão, uma voz comprimia meu coração gelado: "Fraqueza ou força: Está aí, é força. Não sabes nem onde vais nem por que vais, passas por tudo, respondes a tudo. Não te matarão mais, por já seres cadáver". De manhã tinha o olhar tão perdido e o aspecto tão morto que os que encontrava teriam podido não me ver.
O tédio já não é meu amor. As raivas, as farras, a loucura de que sei todos os ímpetos e os desastres - larguei meu fardo inteiro.Vejamos sem vertigem a medida da minha inocência.
Não sou prisioneiro da minha razão. Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso. Sou dissipado demais, fraco demais. Farsa permanente! Minha inocência me fará chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos.

Engoli um senhor gole de veneno. - Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! - As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prosta. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser.
Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no inferno, pois estou nele. Não estão lá boas gentes, que me querem bem?... Venham... Tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. As alucinações são inumeráveis. É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar.
Quero desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, nada.
Ouçam!...Tenho todos os talentos!- Não há ninguém aqui e há alguém: não gostaria de espalhar meu tesouro. Minha vida não passou de doces loucuras, é lamentável. Decididamente, estamos fora do mundo. Ah! Voltar à vida! Lançar os olhos sobre nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo!"

terça-feira, 8 de junho de 2010

O novo Lucky Strike

    O novo Lucky Strike vem numa carteira preta. O preto é luxuoso e está na moda. Os antigos computadores beges nos aparecem agora como velharia. E sujos. Por falar em informática, o novo Lucky Strike tem como logomarca o botão de ligar. Trata-se de um cigarro tecnológico e interativo: é igual ao branco, mas se preferirmos basta quebrar a ampola que tem dentro do filtro para que se torne mentolado. Sentimo-nos, assim, mais livres; é como poder entrar no MSN com o status invisível. O mercado em prol do nosso gozo e bem-estar. Pego agora minha carteira de cigarros e a viro de lado: Um defunto com o peito escancarado e uma narina no pescoço salta-me aos olhos, louco para arrancar o sossego dos impressionáveis. Acima da fotografia, uma única palavra, “Morte”, traz consigo um lacônico mau-agouro. O preto luxuoso instantaneamente se converte em preto fúnebre, macabro. Por livres-associações, chegam-me a mente faixas anarquistas alertando para o mal da moda, do luxo, do capitalismo. Faixas anarquistas porque é o novo Lucky Strike, mas poderiam ser comunistas caso fosse um Marlboro: não faz nenhuma diferença. Nem o atraente designer nem o cadáver me comovem. Não compro a felicidade que uns querem me vender, assim como não me assusto com a morte da qual outros querem me salvar. Abro a carteira e tiro outro: no mais, é um bom cigarro.





terça-feira, 1 de junho de 2010

A PARANÓIA A FAVOR DA METANÓIA

   “Quem não deve não teme” é uma máxima que ainda hoje permeia o nosso senso comum. Devido a ela, mais precisamente ao seu espírito em qualquer letra que se incorpore, é que se atribui certa culpa ao homem paranóico pelas suas paranóias. Sua origem está no conceito judaico de pecado, bem como no de responsabilidade das éticas clássicas gregas, e vem subsumida no conceito de livre-arbítrio comum a ambos. A verdade, sabe a psiquiatria e a psicologia atual, é o inverso: não é porque se sente culpado que o homem paranóico desconfia, mas porque desconfia é que passa a se sentir culpado. Quem sofre de síndrome paranóide costuma desconfiar das coisas que lhe são mais caras: uma mulher que preza a fidelidade e zela pelo matrimônio pode vir a desconfiar que os outros a julguem adúltera ou “oferecida”. O problema – e isso os homens sãos parecem incapazes de compreender – é que os paranóicos desconfiam de si mesmos. Influenciada pela opinião geral e pela máxima supracitada essa mulher irá encontrar em fatos insignificantes do seu passado indícios desproporcionais de sua culpa: certa vez ela achou um homem bonito e não conseguiu disfarçar seu vislumbre; doutra feita foi “cantada” e, embora reta em seu pacto conjugal, não deixou de se alegrar espontaneamente com a vaidade satisfeita. Fatos humanos e inevitáveis que aos olhos do paranóico ganham nova dimensão e ofuscam a verdade. Essa mulher, então, sentindo-se culpada não passaria a se comportar estranhamente para com seu marido até que esse “percebesse” o motivo de sua estranheza? “Quem não deve não teme”.

Outro exemplo, um homem de caráter correto e que age moralmente não com interesse de aparentar algo, mas em virtude de seus princípios éticos, pode, se acometido pela paranóia, encontrar na memória ocasiões em que exibiu publicamente suas ações a fim de elevar um pouco o seu ego e devido a isso passar a acreditar que o propulsor primeiro dessas ações não foi os seus princípios, mas o interesse pela fama e reputação. Em seguida, como é próprio ao ruminar incessante dessa síndrome, esse homem pode passar a “descobrir” interesses ocultos e dissimulados nas demais ações, até mesmo naquelas cuja mola propulsora fora de fato o imperativo de sua índole – suposição para efeito de argumentação, sem entrar na questão da possibilidade real de tal tipo de ação. Como se comportaria um homem assim atormentado por tais pensamentos em suas próximas ações? E sempre que se comentasse a respeito da incorretude moral de se praticar uma ação boa visando outra coisa que não o próprio bem, o nosso homem não exibiria um sinistro olhar que o “entregaria” completamente? Como esses mantos de reflexão, colocados uns sobre os outros, não turvariam a consciência desse pobre homem e tornariam a sua existência culpada e miserável? “Pronto!”, julgaríamos revelado, “sua desconfiança não é gratuita”. No paranóico, a verdade sobre si mesmo é devastada pela mentira de sua doença.

Esse mal que, segundo Freud, nenhum homem mais foge na nossa cultura possui dupla causa. O tratamento de sua causa química está nas mãos da medicina psiquiátrica que já tem obtido resultados bastante favoráveis na elaboração de medicamentos. A outra causa, está em nossas mãos, homens da cultura, e consiste em não mais prestar ouvidos a filosofias velhas e seus velhos preconceitos. Na atualidade científica, para a qual, se a liberdade não é uma inteira quimera, é algo bastante limitado e sempre restringido pela causalidade natural em que nós, seres naturais, também estamos submetidos, os moralistas procuram defender a idéia de que o superego é indispensável para que não nos dissolvamos na mais horrenda perversão e de que, embora não possamos o satisfazer plenamente, ainda necessitamos dele como um racionale e faculdade de orientação sem o qual a vida perde todo o sentido: Tudo isso é uma grande petição de principio. O preço que o superego nos cobra é alto demais para o id que mais fundamentalmente somos e embora eu não possa – contrariamente ao que pensam os ingênuos – me desfazer inteiramente de todas as amarras morais que a minha educação enraizou até o mais profundo cerne do meu sujeito constituído, posso, assim como fizeram Montaigne e Nelson Rodrigues, Nietzsche e Raul Seixas, contribuir com um pequeno passo – passo esse dado por esses homens e que fizeram com que minha sociedade fosse bem mais suportável que as suas – para a metanóia e libertação do homem.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

DILETANTISMO ANTIEVOLUTIVO

"(ANTIEVOLUCIOLOGIA)

I. Conformática

Definologia. O diletantismo antievolutivo é a atitude de indiferença, ou mesmo esnobação, em relação às exigências evolutivas naturais e inevitáveis da vida humana.
Tematologia. Tema central nosográfico.
Etimologia. O termo diletantismo vem provavelmente do idioma Francês, dilettantisme, “profundo gosto pela música italiana; atitude do espírito que consiste em se interessar por qualquer coisa como amador”, derivado do idioma Italiano, dilettante, “que ama; que dá prazer; que cultiva alguma Arte, Ciência ou dedica-se a esporte por prazer, sem fins lucrativos; a quem falta experiência, perícia”, de dilettare, “dar prazer”, e este do idioma Latim, delectare, “atrair; afagar, deleitar; encantar; recrear”. Surgiu no Século XIX. O prefixo anti provém do idioma Grego, antí, “de encontro; contra; em oposição a”. Apareceu no Século XVI. O vocábulo evolutivo procede do idioma Francês, evolutif, de évolution, e este do idioma Latim, evolutio, “ação de percorrer, de desenrolar”. Surgiu em 1873.
Sinonimologia: 01. Diletantismo regressivo. 02. Diletantismo intrafísico. 03. Diletantismo vivencial. 04. Diletantismo materiológico. 05. Diletantismo filosófico. 06. Amadorismo. 07. Superficialidade pessoal. 08. Despriorização antievolutiva; irresponsabilidade. 09. Vida antievolutiva. 10. Vida irracional.
Cognatologia. Eis, na ordem alfabética, 5 cognatos derivados do vocábulo diletantismo: cinediletante; cinediletantismo; diletante; diletantista; diletantístico.
Neologia. As 3 expressões compostas diletantismo antievolutivo, diletantismo antievolutivo eventual e diletantismo antievolutivo sistemático são neologismos técnicos da Antievoluciologia.
Antonimologia: 01. Vida racional. 02. Vida operosa. 03. Vida evolutiva. 04. Priorização evolutiva. 05. Profissionalismo cosmoético. 06. Responsabilidade. 07. Autocomprometimento. 08. Cultura pessoal. 09. Erudição pessoal. 10. Polimatia.
Estrangeirismologia: a vida airada; a navegação sem rumo na Internet; o zapear ininterrupto pelos canais televisivos; o vaguear pelos corredores do Shopping Center.
Atributologia: predomínio das faculdades mentais, notadamente do autodiscernimento quanto à evolução consciencial.

II. Fatuística

Pensenologia: o holopensene pessoal da intrafisicalidade; os ociopensenes; a ociopensenidade; os paleopensenes; a paleopensenidade; os retropensenes; a retropensenidade; os patopensenes; a patopensenidade.
Fatologia: o diletantismo evolutivo; a atitude imatura ante a vida; a postura de amador perante a evolução consciencial; a preguiça de refletir; a ausência da focagem evolutiva; a busca exclusiva de facilidades de qualquer natureza; o hedonismo primário; o encanto com as realidades materiais; os caprichos antievolutivos; a fuga da vida racional; a saída para o acostamento evolutivo; as quimeras mentais; o subcérebro abdominal; o porão consciencial; a robéxis; o umbigão; a vida aceita como passatempo; o brincar de viver; o monopólio dos entretenimentos; o ludismo; a vida em Las Vegas; a jogatina desenfreada; os passatempos paroxísticos; o passar o tempo jogando no computador; o ato de empurrar com a barriga; a existência descomprometida; o ato de dirigir sem destino; o estacionamento na infância evolutiva; a antirrecin; os descompromissos intelectuais; a indiferença pessoal ante a verdade; a filodoxia; o monopólio da improvisação; a displicência como hábito; a falta do desconfiômetro pessoal; a subadultidade permanente; o desperdício do tempo intrafísico; o desperdício das companhias evolutivas; o desperdício das oportunidades evolutivas; a autossubmissão aos devaneios; a automelin; a minimelin; a megamelin; a melex.
Parafatologia: a ausência da inteligência evolutiva (IE); a falta da autovivência do estado vibracional (EV) profilático; o desperdício das energias conscienciais (ECs); a imperícia parapsíquica; a falta do Curso Intermissivo (CI) pré-ressomático; a irresponsabilidade grupocármica como rotina; a interprisão grupocármica; a antitenepes; a antiproéxis.

III. Detalhismo

Principiologia: o princípio baratrosférico da frivolidade; o princípio do prazer.
Codigologia: a ausência do código pessoal de Cosmoética (CPC).
Tecnologia: a antitécnica de viver.
Laboratoriologia: o laboratório conscienciológico da autorganização.
Colegiologia: o Colégio Invisível dos Cosmoeticistas.
Efeitologia: o efeito patológico acumulativo da negligência.
Ciclologia: o ciclo incúria no verão–carência no inverno.
Crescendologia: o crescendo amador-profissional; o crescendo aprendiz-perito; o crescendo calouro-experiente; o crescendo curioso-especialista; o crescendo prático-teático; o crescendo diletante-cientista.
Trinomiologia: o trinômio patológico desmotivação-boavidismo-lazer.
Antagonismologia: o antagonismo intelectual autodidatismo / diletantismo.
Paradoxologia: o paradoxo consciência humana–autovivência subumana.
Politicologia: a asnocracia; a ludocracia; a vulgocracia.
Legislogia: a lei do menor esforço.
Filiologia: a fantasiofilia; a hedonofilia.
Sindromologia: a síndrome da mediocrização; a síndrome da dispersão consciencial.
Maniologia: a melomania; a riscomania; a ludomania.
Holotecologia: a cosmoeticoteca.
Interdisciplinologia: a Antievoluciologia; a Autassediologia; a Sociopatologia; a Desviologia; Auteganologia; a Perdologia; a Intrafisicologia; a Interprisiologia; a Holomaturologia;
a Cosmoeticologia; a Recexologia.

IV. Perfilologia

Elencologia: a consciênçula; a consréu ressomada; a conscin baratrosférica; a conscin comatosa evolutiva; a conscin eletronótica; a isca humana inconsciente; a conscin despreparada.
Masculinologia: o pré-serenão vulgar; o melomaníaco; o desô.
Femininologia: a pré-serenona vulgar; a melomaníaca; a desô.
Hominologia: o Homo sapiens incautus; o Homo sapiens vulgaris; o Homo sapiens acriticus; o Homo sapiens debilis; o Homo sapiens reptilianus; o Homo sapiens maniacus; o Homo sapiens polymatha.

V. Argumentologia

Exemplologia: diletantismo antievolutivo eventual = o do jovem na fase vivencial da adolescência com possibilidades de melhoria; diletantismo antievolutivo sistemático = o do adulto na fase vivencial da maturidade com menores possibilidades de melhoria.
Culturologia: a cultura inútil."

Enciclopédia da Conscienciologia

terça-feira, 11 de maio de 2010

Descobertas

   No fundo da creche havia um terreno abandonado e lodoso. Foi num dia em que esse estava seco devido a longa estiagem que ouvi, pela primeira vez, o milagre de um coração bater. Antes, havia sentido com minha mão fortemente espremida entre um peito infante e uma mão macia os movimentos cardíacos de contração e descontração; nesse instante, descobri que existia um calor que era agradável. Depois peguei a mão que jazia sobre a minha e reproduzi o ato em meu peito, só que dessa vez eram três movimentos: havia também o “aperto”. A mão que se desprendeu da minha foi até minha cabeça e a colocou em meio aos seus seios verdes: ouvi uma criança travessa brincando dentro de outra.

Regra e exceção

   Visto que a primazia dos interesses individuais e privados sobre os gerais e públicos é um fenômeno restrito na história humana, limitando-se temporalmente aos últimos quatrocentos anos da espacialmente limitada cultura ocidental; os cientistas das humanidades prontamente concluem que tal primazia constitui a exceção, não a regra. De fato, dentro de seu limitado campo de conhecimento, eles encontram-se plenamente justificados em realizar tal inferência. Tanto o passado da cultura ocidental, partindo dos primórdios homéricos e pré-homéricos, passando pela polis clássica e chegando ao feudalismo medieval, quanto as demais culturas indo americanas, orientais e africanas, apresentam, todas elas, a primazia inversa. Porém, como a história da humanidade é apenas uma pequena fração de uma história muito mais ampla, i.e., a dos seres vivos, a história natural, percebemos que aqueles povos que, pensava-se, constituíam a regra, são a verdadeira exceção.
   Quando temos um conjunto de coisas que se comportam segundo uma regra geral e nos defrontamos com alguns de seus membros que fogem a essa regra, procuramos sempre conhecer quais são as circunstâncias particulares que possibilitaram essa exceção. Devido a esse procedimento, os cientistas das humanidades julgaram ser o capitalismo a raiz do “mal” dos modernos, do nosso individualismo possessivo – e isso conduziu a todo tipo de calúnia e difamação ao liberalismo; Hobbes e Locke foram condenados a fogueira como bruxos do poder constituído e suas filosofias reduzidas a ideologias interesseiras. Porém, como, a luz da filosofia da natureza, “regra” e “exceção” foram invertidas, o que reclama a nossa atenção são as circunstâncias particulares que conduziram a maioria das sociedades humanas a colocar os valores públicos acima dos privados. Ora, o que distingue o homem dos demais seres da natureza é a sua atividade simbólica – atividade simbólica essa que foi sendo gradativamente questionada e minada nos últimos quatrocentos anos por aquela mesma cultura que, coincidência ou não, fugiu a “regra”. É preciso uma hermenêutica dos mitos fundantes e da religião, uma que mobilize todo o nosso atual arsenal epistêmico: da lógica à psicanálise, sem dispensar, é claro, as ciências humanas, contanto que se utilize a história em perspectiva comparada com a história natural e a sociologia e antropologia como ciências mais complexas que a biologia, mas compreendidas a partir dela (tal como a química em relação a física e essa a matemática). Salvaremos, então, Hobbes e Locke da mácula que os envolveu, devolvendo-lhes a dignidade de cientistas da natureza e, talvez, possamos ser gratos a modernidade por ela ter nos restituído a liberdade.