terça-feira, 11 de outubro de 2011

poemeto

 
Construi em torno de mim uma muralha de livros
e embora sobre eles eu veja tudo de cima e mais além
- tal como a grande pirâmide de Quéops -
eles não deixam de ser o meu sarcófago e minha sepultura

terça-feira, 26 de julho de 2011

Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres



Como hoje ninguém mais tem saco para os fundamentos e as discussões verdadeiramente filosóficas e como eu não tenho saco para o destrinchar estéril de argumentos e o preencher inútil de páginas dos filosofólogos, i.e., dos acadêmicos ("inútil" não! justiça seja feita, pois gera milhares de empregos nas indústrias de papel), decidi imitar Diógenes Laércio e escrever o meu Vidas dos Filósofos, certo de que com isso cairei no gosto do nosso homem contemporâneo, sempre ansioso por biografias dos “grandes homens”, que o divirtam e o distraiam do grande fastio que são as suas. Já até visualizo, com isso, a minha obra se tornando best-seller e figurando na Veja e na Zero Hora como “Um dos maiores livros de todos os tempos [da última semana]”. Eu faço o que o público quer e ele me retribui com grana – bravo novo-mundo! – e ainda serei aclamado por ele como - ah! estou emocionado – “Filósofo”. 

Vamos começar, então, por Wittgenstein, pois ele é um daqueles “gênios incompreendidos” que adoramos ver no cinema, a fim de depois posar de intelectual e impressionar a namorada, citando Nietzsche, Van Gogh e Dostoievski, e comentar como a sociedade foi injusta com esses homens – isso, é claro, depois de se livrar daquele amigo chato e meio louco que só consegue nos colocar pra baixo.
Wittgenstein, na verdade, poucos sabem, foram dois. Wittgenstein I – nós brasileiros, pouco acostumados com os títulos de nobreza da aristocracia européia, dizemos “primeiro Wittgenstein” – foi um filósofo dos tradicionais (os “pqp’s”). Dotado de incrível inteligência matemática e raciocínio lógico, passou de engenheiro aeronáutico – profissão precoce onde inventou, com apenas 18 anos, um motor a jato – para a matemática aplicada e dessa para a pura, e da pura para os fundamentos da matemática, i.e., pela filosofia da matemática, ele só não chegou a Deus, porque Russell, filósofo esquizofrênico e freqüentador de bordeis, contaminou a genialidade daquele com a sua estapafurdice disfarçada de inteligência. Embora o axioma da infinitude de Russell tenha impedido Wittgenstein Pai de chegar ao ser perfeito e infinito1 – e ele chegaria, não restam dúvidas! –, esse escreveu um livro onde se vinga de seu traiçoeiro mestre2, o Tractatus Lógico-Philosophicus. No Tractatus Wittgenstein afirma que as relações entre os objetos não são reais, querendo dizer com isso que nunca teve relações com Russell – ontologicamente falando –, embora o filósofo gagá defendesse com unhas e dentes a realidade da relação. Outra afirmação do livro é que toda a filosofia não passou de um mal entendido a cerca da linguagem, esse mal entendido residiria na função da cópula: acredito que ele estava tentado, com isso, mostrar a Russell que mesmo tendo havido cópula, isso não implicava numa relação. Não se sabe bem ao certo a razão da morte de Wittgenstein I, mas se conjectura que teria tido um enfarto ao ver a ascensão dos regimes democráticos: filósofo circunspecto, reagia extremamente mal a opiniões pouco embasadas e confusão conceitual.
Wittgenstein II foi o extremo oposto do pai. Rebelde e revoltado, associou-se desde cedo a turma dos filósofos malditos (mais conhecidos como “odaras”). Lia Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard e, dizem as más-línguas, obras de cristianismo e misticismo. Certa vez, num congresso entre os pensadores do círculo de Viena, discípulos de seu pai (os chamados “positivistas lógicos”), ao ver um de seus autores prediletos, Heidegger, ser duramente  acusado de charlatanismo, cujas obras supostamente “não diziam absolutamente nada”, levantou-se em sua defesa: “Mas eu o entendo perfeitamente!”, para vergonha de seu pai e horror dos companheiros, que tiveram a certeza que o filho rebelde estava envolvido com drogas. A verdade é que Wittgenstein II tinha complexo de Édipo, não pela sua mãe, o qual ele não teve3 – seu pai, taciturno, jamais tivera mulheres e, reto, jamais freqüentara prostíbulos –, mas pela sua avó: toda a sua existência consiste na negação do estilo de vida paterno e na afirmação do estilo da avó. Seu sonho era tocar piano, mas seu pai obrigou-lhe a trabalhar: conseguiu emprego, então, numa creche, mas como odiava trabalho, espancava as criancinhas. Sua principal obra, Investigações Filosóficas, reiterava ironicamente a afirmação do pai de que toda a filosofia não passava de um mal entendido a cerca da linguagem, com a diferença que a do pai também se incluía. Dizia também que nem a linguagem nem o pensamento possuíam uma essência (tese presente na Teoria da Figuração de Wittgenstein I) e que a Lógica, a única musa pela qual o pai teve poluções noturnas, nada mais era do que um jogo de linguagem. Reduzir a lógica a um jogo foi um mecanismo psíquico com que o inconsciente de Wittgenstein II se libertou da repressão paterna e ele pode, então, se entregar de vez  ao seu vício, a jogatina. Suas últimas palavras foram: “Digam a todos [principalmente aos positivistas lógicos] que [ao contrário do meu pai] a minha vida foi maravilhosa”.

1 Pois aquele velho safado estava convencido de que não se podia contar sem que existisse no mundo um objeto a mais para cada número contado, de modo que sempre que Wittgenstein queria chegar a Deus lhe caia um objeto na cabeça.
2 Mais filho-da-mãe do que Platão para com Aristóteles, que, como todos sabem, legou o seu posto na academia ao sobrinho. Aristóteles, então, em vez de acusá-lo de nepotismo, procurou se vingar, assim como fazem todos os filósofos, refutando-o: nascia o argumento do terceiro homem.
3 Wittgenstein II é o resultado de uma experiência fracassada num laboratório nazista de criação de bebês arianos perfeitos, sua gestação in vitro foi interrompida pelos ataques dos Aliados. A fertilização foi realizada com o sêmen do pai e o óvulo da avó, que era música e da qual Wittgenstein II herdou o gosto pela farra e boêmia.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Por uma psiquiatria individual

     É um erro classificar a fobia social como uma doença, sem mais, só porque a maior parte das pessoas são sociais. A boa medicina contemporânea[1] – não a da organização mundial de saúde, que estabelece arbitrariamente (ou melhor, segundo interesses burgueses de produtividade) definições de saúde sem qualquer embasamento biológico, pois biologicamente, levando em consideração o neodarwinismo, não há norma e, portanto, não há saúde –, bem como a psicanálise, admitem uma multiplicidade imensurável de variações das características humanas e uma singularidade inexorável de cada indivíduo. Afirmar que a fobia social é em si mesma uma doença é retroceder ao aristotelismo e postular uma sociabilidade inata a essência humana: “o homem é um animal social”; e isso, por que Aristóteles apoiava o conceito de normalidade no conceito de regularidade; “normal”, definia o filósofo, era o que acontecia “no mais das vezes”. Concepção superada pela bioquímica – que começa a abrir terreno hoje para uma futura medicina individual. É verdade que se a fobia social está afetando “negativamente” um individuo, impossibilitando a “expansão da sua personalidade”, como dizem os psicanalistas, e comprometendo a realização de seu projeto de vida, aí sim temos um problema; mas esse problema pode ser tão só a tentativa sempre frustrada de adequação a um padrão, de “enquadramento” – no sentido técnico lacaniano –, pelo não reconhecimento por parte do individuo que a sua “impotência é uma impossibilidade”. Porque a cultura, como imposição de normas e padrões para aquilo que é naturalmente único, internalizada como super-ego, reprime sempre as pulsões a ela contrárias.[2] Não só há indivíduos sem absolutamente necessidades sociais – não estou falando de necessidades pragmáticas (por exemplo, ter que se manter financeiramente), mas pulsionais  –, e infinitas graduações de sociabilidade, como há diferentes demandas subjetivas que levam os indivíduos a sociabilizar-se: alguns tem necessidade de muitas relações interpessoais para satisfação própria, outros são levados ao convívio social apenas por interesse sexual – tal como leopardos solitários que buscam um parceiro apenas na época de acasalamento. Por isso é necessário auto-conhecimento, mas não o “conhece-te a ti mesmo” socrático, feito pelo auto-exame consciente, pois a consciência é justamente em nós o produto da nossa cultura (a favor disso alegamos que a consciência opera com a linguagem e a linguagem é uma ferramenta social), de modo que sempre que julgamos a nós mesmos sob o ponto de vista consciente julgamos sob o ponto de vista do nosso rebanho, mas o saber inconsciente proporcionado pela análise e da fisiologia e bioquímica do nosso corpo singular.


[1] A medicina funcional, não a estrutural.
[2] A ignorância que os intelectuais das áreas das humanas tem em relação a natureza é repulsiva: resistem a todo custo ao determinismo natural, crentes que com isso salvam a subjetividade, quando é justamente na natureza que somos mais singulares. Se há algo que nos massifica é o âmbito social-cultural.

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Imaginação

Certa vez, um desses homens de ação
parou-me e fez certa objeção:
"Tu não é pura imaginação?"
Sou contemplação, imaginação e criação
e, por isso, tres vezes tres vezes tres, homem de ação.

Eis o meu lema: se não é visceral não vale a pena!



TCC, uma grande dor de barriga: gravidez ou prisão de ventre?

     Sinto cá dentro de mim uma terrível dor de barriga que já dura meses. Constante foram as flatulências, mas de uns dias para cá tenho sentido certa dorzinha nos mamilos. Estariam minhas glândulas mamárias se preparando para dar força aquele que eu dei a luz? Se o motivo de minha cólica é um filho meu que se cria em minhas entranhas, logo o amor o meu cérebro embriagará e com um novo sentido para a vida saltitarei por aí como as endorfinas e serotoninas entre meus neurônios. Quero então amamentá-lo, torná-lo forte e viçoso e dele cuidar e lembrar pelo resto dos meus dias. E em meus derradeiros anos, quando tudo em mim já estiver se apagando, posso a ele visitar e sentir-me reconfortado com a certeza de que algo meu recem começa a brilhar. Mas se o que sinto é prisão de ventre e a dor dos seios não passa de evento fortuito prestes a acabar, quero ir logo ao banheiro livrar-me das sobras que a digestão rejeitou. O que no meu curso me foi proveitoso ou a língua do sabor degustou ou os nutrientes o corpo já metabolizou. O resto é fezes que não me servem! [compromissos acadêmicos]; nesse caso, quero puxar a descarga e dar o fora desse banheiro fedido.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tour pela Costa Doce - Tapes e Arambaré

        No dia 15 de janeiro, farto de ser visto pelas criancinhas como uma espécie de bom velhinho que distribui picoles na praia - se bem que com certas criancinhas isso não era nada mal -, resolvi tirar umas férias da minha profissão de férias: sim, sou filósofo e picolezeiro. Tomei um ônibus para Tapes na rodoviária de Osório. Pretendia passar por Tapes, Arambaré, São Lourenço do Sul, Pelotas e Rio Grande. Foi o que fiz, só me arrependendo depois de ter feito a primeira parada. Tapes é incrivelmente feia e cinzenta. Possui  alguns prédios históricos, mas todos mal preservados e pequenos. Só fotografei a igreja na frente da praça central - não lembro o nome de ambas, sou péssimo com nomes - e o camping União, o lugar mais bonito da cidade - e olha que não é lá essas coisas -, onde pretendia passar a noite. Felizmente não tinha mais barraca disponível e pude me mandar para Arambaré. Minha impressão de Tapes foi tão negativa e lamentei tanto por vinte reais jogados no lixo que a zanga do meu inconsciente tratou de apagar as poucas fotos da cidade, ainda que a consciência - sempre nos enganando - quis me fazer crer que a causa fosse minha imperícia com a recém adquirida Kodak 14megapixels. Arambaré foi o extremo oposto! Extremamente pequena, com só quatro bairros, essa cidadezinha conquistou meu coração. A começar pelo difícil acesso em estrada de chão batido que se estende por quilômetros. As plantações de arroz da região atraem muitos passarinhos que ficam pela estrada e adoram perigo, pois só batem em arrevoada quando o ônibus já está em suas colas: pardais, pombinhas-rola, anuns solitários, ticos-ticos ainda são comuns por lá, varios grupos de azulões e muitos cardeais - dos de cabeça vermelha tinha vários, mas tive a dádiva de ver um de cabeça amarela, raríssimo! Infelizmente a estrada será asfaltada, o que vai acabar com aquela áurea de paraíso-perdido que tanto me impressionou em Arambaré. Bom, pelo menos a sua pontezinha singela de uma única mão vai permanecer, juntamente com as filas de carros que esperam pacientemente a travessia de um trator ou carroça que vêm da direção contrária.






da ponte eu não esqueci o nome






       80% da população de Arambaré é composta por pessoas de Novo Hamburgo, o que me fez sentir em casa - sou hamburguense. Não é preciso falar, então, que lá está cheio de lindas "alemoazinhas" (sic) recatadas e de olhos azuis - que saudade que eu sentia delas depois de um mês em meio aquela beleza vulgar e trivial dos corpões bronzeados e padronizados da playboyzada de Tramandaí! O mesmo aconteceu com a música, depois de um mês tendo meus ouvidos mijados por funk e sertanejo da moda, adivinha o que eu ouço sair de uma casa?  Queen! Vocês sabem o que é ouvir a voz de um Fred Mercury depois de tanto tempo ouvindo, todo santo dia, a mesma coisa saindo de carros todos iguais com os mesmos bonecos-autômatos de óculos escuros, corpos sarados, caras de bad boy e cérebros de pinico? Quem já experimentou o que estou dizendo certamente faz uma boa idéia do sentimento que teremos no dia da salvação! Lembro-me que correram-me lágrimas naquele instante: We are the champions...
       Arambaré é conhecida como a cidade das figueiras, elas estão por toda parte, inclusive na beira da lagoa. Seu principal ponto turistico é a suposta maior figueira do Brasil, com uma copa com mais de cinquenta metros de largura.


Vai aprender a tirar foto


    Arambaré reinvindica para si, também, o título de melhor carnaval da Costa Doce, rivalizando com São Lourenço do Sul. Deve ser realmente muito bom, pois tive a oportunidade de conhecer o de São Lourenço em 2007 e ele é mesmo incrível, não só pelos desfiles das escolas, que não ficam nem um pouco atrás das escolas de Poa - donde pode se concluir que deixam as de São Leopoldo comendo poeira - como, e principalmente, pelos foliões que no intervalo dos desfiles invadem a passarela travestidos - é engraçadissimo! Pelo folder que recebi na prefeitura, Arambaré, que tem menos de 4000 habitantes ,chega a receber 30000 turistas no feriado de carnaval. 30000 turistas em quatro bairrinhos de algumas quadras cada, deve ser um fervo, imagine como fica a travessia na ponte João Goulart! Além da figueira gigante, três são os outros pontos turisticos da cidadela: um antigo engenho, um barquinho e uma plataforma. A próxima foto mostra a imensidão da cidade:



     O fundo da lagoa em Arambaré é cheia de mexilhões e algas, os quais é inevitável não pisar, não chega a machucar, mas é desagradável; esse é o único ponto negativo. Arambaré deixou-me saudades: tão pequena, tão singela, acolhedora, com boas pousadas com preços bem baixos. Fiquei três dias numa e paguei só setenta mangos, tinha ventilador, geladeira, fogão, televisão, cama de casal, churrasqueira e até vara de pescar! Mas o melhor de tudo é certamente as pessoas: discretas, humildes, educadas, de bom gosto... e branquinhas de olhos claros!

o antigo engenho
o barquinho e a plataforma





centro de Arambaré: "bombando"





Próximo parada: São Lourenço do Sul!