Reaprender a se amar, redescobrir o valor de si mesmo, reconciliar-se com o seu Eu mais íntimo e imutável: sublime tarefa que tenho realizado como atividade lúdica - meios diletantes para fins gloriosos e "absolutos": eis a minha fórmula para o viver! Se cheguei ao total desprezo por mim mesmo, se por tempos mantive-me na auto-renuncia, isso é porque já me alcei a dez mil pés acima de mim mesmo. O desprezo é o privilégio dos que sentem vertigem. Mas do fato de eu não me dar valor não significa que eu não o tenha, muito pelo contrário... Tanto menos paga o ourives pelo ouro quanto mais o tem. Além disso e preponderantemente, não tem valor de uso o próprio usador - ao menos que se deixe usar, mas isso não é próprio senão aos dotados de qualidades femininas... -; é só nas relações que se estabelece um valor, e esse valor é, sempre, valor de troca - disso todos tinham ciência na época de Homero, quando ainda não havia a relação com o Pai. Os homens são por demais inseguros para reconhecer valor naquilo que ainda não foi avaliado; o que dizer, então, daquilo que foi avaliado negativamente por um seleto avaliador? Mas cuidado quando esse último é o próprio objeto de sua avaliação: seus critérios e bom gosto não satisfazem a si mesmos.
Para a reconciliação de si faz-se necessário acima de tudo afastar a idéia de que a liberdade consiste em ser aquilo que se quer - isso é escravidão -, pois ser livre é querer ser aquilo que, desde sempre, se é. Depois disso, depois da jubilosa afirmação incondicional do Eu, surge espontaneamente, e como que num estado de graça, o desejo de cuidar de si. E cuidar de si é cuidar do seu corpo, ou melhor, do corpo que você é. Uma loção hidratante se transforma, então, numa oportunidade de se fazer carinho, e esse carinho, um sincero pedido de desculpas. Daqui surge a minha fascinação pela Mulher. Fascinação é mais que o desejo de posse, que um superficial reconhecimento da beleza que se volta todo para o sexo, para a carne e para os órgãos sexuais. Fascinação é, sem dúvida, sexo. Não é amor. Orienta-se para a carne, não para a alma, mas a carne é sublimada, a beleza sacralizada. É sexo num sentido muito mais amplo, quase espiritual, onde cada folículo da pele se torna uma divindade própria digna de reverencia. E o maior segredo da Fascinação é não somente querer ter, mas ser. A mulher, na sua vaidade, no seu querer bem a si mesma, nos lábios que fazem um biquinho que se torce para os lados só para disfarçar um sorriso de satisfação quando se descobre observada, revela a sua pericia no amor próprio, num egoísmo felino que justifica eternamente o termo "Gata".
Existem, porém, dois tipos de cuidados com o corpo: aquele que quer o melhor para si, que quer fazer surgir a sua mais bela forma possível; e aquele que quer se transformar num outro, que emana do ódio ou vergonha de si. No primeiro caso, o cuidado com o corpo é uma forma de carinho, de amor, no último, uma agressão. Cuidar do seu corpo, dedicar-se a si mesmo, proporcionar prazer aquele que é seu maior e inseparável companheiro, admirar-se no espelho, passar um protetor solar no rosto ao mesmo tempo em que o acaricia e o deseja. O Rosto, como diria Lévinas. O transcendente no imanente e o infinito contido dentro do finito; o fundamento, para esse filósofo, do comportamento ético. Quem acaricia um rosto acaricia uma alma.
Só mesmo o homem da cidade para dizer que o homem do campo acorda com o cantar do galo. No campo, galos cantam a noite inteira, desregulados, e o colono não pode se dar ao luxo de prestar atenção a essa boemia cantoria. O homem do campo acorda, isso sim, com o despertar da natureza, quando os passarinhos começam uma nova festa pagã em homenagem ao deus Sol, plenos de alegria depois de uma escura noite de incerteza: “Voltará ainda o dia?”. Não que o homem do campo espere os passarinhos para levantar; ele não baseia o seu relógio na natureza, a natureza dentro dele é o seu relógio. O homem do campo está em unidade com a natureza e, independente da mudança das estações e dos fusos-horário, a natureza toda desperta quando o Sol lhes dá bom-dia.
Comigo, criancinha urbana, a coisa era diferente. Acordava quando escutava o vozerio e o ruído de panelas na cozinha. Saia correndo, tomado da mais inocente alegria, até a cozinha para comer o carreteiro com café preto que meu avô preparava para os colhedores de uva. Não escovava os dentes nem limpava as remelas, pois vovô não dava importância alguma, toda aquela chatice de deveres ficava na cidade com minha mãe e as professoras. Quando me via, o velho de bombacha soltava um daqueles autênticos e contentes brados que só os homens do campo são capazes e me dava um abraço que me quebrava as costelas. Todos os trabalhadores me diziam “bom-dia!”, com aquela entonação que lhes é própria, e de pronto voltavam a sorver ruidosamente o chimarrão e a falar, como que cantando, dos seus assuntos. O carreteiro era de charque, feito em panela de ferro, em fogão a lenha e colher de pau. O fundo queimado meu avô sempre guardava para mim, embora ele também achasse aquela a melhor parte. A essa altura, umas seis e pouco da manhã, vovô já vertia o seu segundo copo de vinho, o que não tinha nada de anormal entre os agricultores de descendência italiana de Farroupilha. Quando ficava bêbado, era comum bater em minha vó, o que também não tinha nada de anormal. Nessas circunstâncias costumava repetir: “O homem deve sempre bater em sua mulher, mesmo que ele não saiba por que está batendo, ela sabe por que está apanhando”. Mas esse não era meu vô, meu vô era um marido afetuoso e divertido, bom de fandango e trabalhador, e, o que era mais raro entre os “guascas” como ele, fiel; jamais violaria o juramento que fez na frente do padre. Doutra feita, numa de suas bebedeiras, correu de facão atrás dos meus primos mais velhos, que o provocavam; quanto a mim, ele nunca fez nada senão coisas boas, mas eu era o comportadinho da família. Quando se inventou o alcoolismo, foi que lhe disseram que estava doente; só então começou a se comportar como um: proibiram-no de produzir vinho e ele começou a beber escondido, da pura, nos botecos, e a ser encontrado caído nas ruas. Nessa época, vovó se apegou com toda força na religião, da qual sempre fora devota, até chegar ao fanatismo de uma velha carola. Isso não aconteceu porque ela apanhava de vez em quando de um marido que no mais era bom e alegre, mas só quando esse começou a adoecer porque descobriu que tinha uma doença.
A minha memória, porém, é de épocas anteriores, época que minha vó rezava satisfeita e meu vô ria e dançava. Vovô era o melhor assador que conhecia: a picanha era sangrenta, a costela passada, a ovelha no ponto; e tudo com o sabor único da lenha de acácia negra. Se para os gaúchos em geral é um pecado um churrasco temperado com outra coisa além do sal grosso, para meu avô o pecado já começava usando-se carvão. Nas raras vezes que assava galeto, deixava as galinhas tortas de cachaça no dia anterior para amaciar-lhes a carne. Galinhas caipiras e bêbadas na salmoura de minha avó: a idéia de galeto ela mesma!
Depois do carreteiro e do café preto, vovô e eu íamos cuidar da bicharada: abríamos o curral para o gado pastar; dávamos milho às galinhas; atirávamos pedaços de pão às carpas; colhíamos as verduras e legumes para o almoço e o que não prestava atirávamos aos porcos. Depois do mais divertido, vovô pegava na enxada e eu começava minha vida errante: ia até as parreiras ver os peões colhendo uva, depois voltava para “ajudar” meu vô na plantação, e, de pouco em pouco, ansioso, dava uma olhada em minha vó para ver se ela já tinha parado de rezar – a missa que a rádio aliança, a única estação religiosa da época, católica, transmitia diariamente e que vovó nunca “faltava”. Depois da missa, ela saía para tirar o leite do café e esse espetáculo, junto com a lida dos animais, eu jamais perdia. Naquela casa os horários eram outros, o que contribuía para o meu estado de êxtase permanente durante as férias. Se bem que, se há uma boa definição para a infância, essa é o estar em permanente estado de êxtase, onde tudo é novidade, alegria e fruição.
O café da manhã estava na mesa lá pelas onze, meu avô chegava um pouco antes para tomar um mate e “prosear com a véia”. Embora o café fosse só para nós, a mesa parecia insinuar que todos os trabalhadores iriam invadir aquela porta, famintos. Pão caseiro, queijo colonial, salame, manteiga, morcilha, torresmo, schimier – de uva, é claro! –, mel e “leite da vaca”. Depois do café, vovô voltava a pegar na enxada e vovó alimentava os cães – com a polenta que seu marido preparava de manhã cedinho junto com o carreteiro –, depois ela levava numa cesta o “almoço” dos colhedores de uva – o nosso café da manhã –, e, sem demora, voltava à cozinha para cuidar do nosso almoço. Até as quatro horas, quando o almoço estava pronto, eu brincava com os cães e os outros animais, ou ficava chateando o velho agricultor, perguntando-lhe o nome dos passarinhos, ou, se era verão, me atirava na cachoeira. No inverno, eu preferia ficar escutando a rádio aliança com minha vó, aquecido pelo fogão a lenha e admirado com sua devoção: contemplava a sua ladainha enquanto descascava aipim. Quando não tinha ninguém por perto, eu fazia algumas “artes”: atirava um cuscu contra um ganso para ver a natureza em ação; arrebentava minhocas; largava um gato no chiqueiro para ver seu arisco desespero com o alvoroço dos porcos...
Depois do almoço, enquanto vovó lavava a louça, vovô e eu tirávamos a sesta. Quando acordava, ele não estava mais ali; batia-me então certo remorso – não é bem essa a palavra – muito comum na infância, que surge daquele sentimento de não sabermos se ainda é hoje ou se já é amanhã, somado ao arrependimento de ter desperdiçado dormindo o precioso tempo em que se poderia viver e brincar, além de outros sentimentos muito estranhos e vagos, ruins e desnorteados, difíceis de explicar. Em seguida, encontrava minha avó cuidando das flores e começava a me recuperar: cuidar das flores era a sua maior fonte de prazer. Seus canteiros eram sempre coloridos e bem podados. Eu me entretia observando-as e perguntando pelos seus nomes, procurava as flores novas ou aquelas as quais eu havia esquecido o nome, o que era raro naquela época de memória fresca e de atenção toda voltada para o mundo ao redor, para a descoberta. Sim, eu havia sido um grande observador antes de me enterrar em mim mesmo! O gaúcho, por sua vez, no final da tarde, tratava de realizar a tarefa inversa do amanhecer: tocava o gado para o curral – ele brincava comigo: “toca gado!” –; prendia as meninas no galinheiro, etc. Quanto aos pavões, não era preciso fazer nada, empoleiravam-se na figueira e começavam a miar feito gatos tenores: essa é certamente uma das mais lindas cenas que o crepúsculo pode nos proporcionar. Também os patos, gansos e marrecos iam por sua própria conta até o açude, onde se colavam uns aos outros, com as cabeças embaixo das asas. À noite, vovô se dedicava inteiramente a mim: jogávamos canastra ou pife ou então íamos pescar e ele contava causos que me enchiam de medo – e como era gostoso aquele medo! –, causos que eram entrecortados por períodos de silêncio que duravam um longo palheiro. Era nesses momentos que eu sentia a absoluta escuridão da noite contida no chirrear de uma coruja. Lá pelas onze horas jantávamos e depois nos preparávamos para ir dormir.
Essa era a rotina inabalável da chácara de meus avós. Rotina que só se desfazia no sábado a noite, quando íamos ao CTG, ou no domingo, que costumava ter churrasco, pais, tios e primos. Havia também outra coisa que quebrava a rotina: os dias chuvosos. Esses eram incrivelmente mágicos e especiais, os trabalhadores não apareciam e ficávamos o dia inteiro na cozinha, jogando carta, tomando chimarrão, e ouvindo a rádio aliança. Foi num desses dias que meu avô falou algo que mudou para sempre minha sensibilidade: estávamos ambos olhando pela janela a chuva a cair nas flores, nas árvores e nas uvas, sentindo o cheiro da terra molhada, quando ele disse “Veja só como a natureza inteira está feliz”.
Eles "sabem" muito e, ao mesmo tempo, sabem tão pouco. Conhecimento formal carente de conteúdo; vão palavrório: quem conhece por meio de definições, contempla o objeto da definição como a um sol, de baixo para cima. Quem conhece por meio da experiência - do pathos -, contempla as definições como Deus as suas criaturas, de cima para baixo. Essa é a razão de nosso esoterismo e de nossa rebelião contra toda democracia: A Filosofia, e com ela, o discurso racional-discursivo - e, portanto, compartilhável - foi a primeira investida rancorosa do vulgo contra os profetas e oráculos de outrora; a democracia dos estados contemporâneos a nossa derrocada. A nossa sabedoria é material, rica em conteúdo, plena de substancia, mas, no entanto, e por isso mesmo, desde o início condenada. Condenada porque não há conteúdo que se reduza a forma e substância que se deixe dizer; pois é justamente o que há de substancial na substância que não pode ser transformado em palavras. "Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não a permissão de falar sobre o que aprenderes". Diante dessa "habilidade", é impossível não alimentar as mais atrozes suspeitas: "minhas causas não seriam desculpas?". E a consciência dessa dificuldade prejudica sempre nossa autodefesa (a veemência, a segurança, a intrepidez e todos os demais adornos que servem muito mais a persuasão do que ao convencimento). Eis a razão de ser do provérbio "Quem fala não sabe, e quem sabe não fala". Mas de novo se nos ergue a possibilidade palpitante: "Não seriam nossas desculpas, causas?" E daí se segue uma paixão, uma consciência de missão, uma autoconfiança repleta de vitalidade, uma alegria juvenil, uma força no persistir, uma louca vontade de apostar, uma visão do triunfo iminente... Lançarei agora o maior argumento a favor de minha filosofia: Eu sou esse argumento!
"Antigamente, se bem me lembro, a minha vida era um festim, onde se abriam todos os corações, corriam todos os vinhos. Uma noite, sentei a Beleza no meu colo. - E a achei amarga. - E a xinguei. Armei-me contra a justiça. Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, meu tesouro foi confiado a vocês! Consegui apagar do meu espírito toda a esperança humana. Para estrangular toda alegria, dei o bote surdo da fera. Chamei os carrascos para, morrendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para sufocar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu Deus. Deitei na lama. Sequei no ar do crime. E preguei boas peças à loucura. E a primavera me trouxe o medonho riso do idiota. E ultimamente, estando quase ao ponto de dar a minha última nota falsa!, pensei procurar a chave do antigo festim, onde reencontrarei talvez o apetite. A caridade é esta chave. - Esta inspiração prova que sonhei. "Você continuará hiena, etc...", exclama o demônio que me coroou com tão amáveis papoulas. "Ganhe a morte com todos teus apetites, e teu egoísmo e todos os pecados capitais." Ah! peguei disto demais: - Mas, meu caro Satanás, vos conjuro, uma pupila menos irritada! e aguardando algumas pequenas covardias atrasadas, vós que amais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou instrutivas, vos destaco estas horrendas folhas do meu carnê de danado.
A gente não parte. Retoma o caminho, e carregando meu vício, o vício que me lançou raízes de dor ao meu lado, desde a idade da razão, e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta.
A quem me alugar? Que animal é preciso que adore? Que santa imagem nos agredirá? Que corações partirei? Que mentiras devo sustentar? Em que ânimo avançar?
Ah! Estou tão abandonado que ofereço à não importa que imagem divina os impulsos para a perfeição.
Nas estradas, por noites de inverno, sem morada, sem um abrigo, sem pão, uma voz comprimia meu coração gelado: "Fraqueza ou força: Está aí, é força. Não sabes nem onde vais nem por que vais, passas por tudo, respondes a tudo. Não te matarão mais, por já seres cadáver". De manhã tinha o olhar tão perdido e o aspecto tão morto que os que encontrava teriam podido não me ver.
O tédio já não é meu amor. As raivas, as farras, a loucura de que sei todos os ímpetos e os desastres - larguei meu fardo inteiro.Vejamos sem vertigem a medida da minha inocência.
Não sou prisioneiro da minha razão. Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso. Sou dissipado demais, fraco demais. Farsa permanente! Minha inocência me fará chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos.
Engoli um senhor gole de veneno. - Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! - As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prosta. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser.
Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no inferno, pois estou nele. Não estão lá boas gentes, que me querem bem?... Venham... Tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. As alucinações são inumeráveis. É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar.
Quero desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, nada.
Ouçam!...Tenho todos os talentos!- Não há ninguém aqui e há alguém: não gostaria de espalhar meu tesouro. Minha vida não passou de doces loucuras, é lamentável. Decididamente, estamos fora do mundo. Ah! Voltar à vida! Lançar os olhos sobre nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo!"
O novo Lucky Strike vem numa carteira preta. O preto é luxuoso e está na moda. Os antigos computadores beges nos aparecem agora como velharia. E sujos. Por falar em informática, o novo Lucky Strike tem como logomarca o botão de ligar. Trata-se de um cigarro tecnológico e interativo: é igual ao branco, mas se preferirmos basta quebrar a ampola que tem dentro do filtro para que se torne mentolado. Sentimo-nos, assim, mais livres; é como poder entrar no MSN com o status invisível. O mercado em prol do nosso gozo e bem-estar. Pego agora minha carteira de cigarros e a viro de lado: Um defunto com o peito escancarado e uma narina no pescoço salta-me aos olhos, louco para arrancar o sossego dos impressionáveis. Acima da fotografia, uma única palavra, “Morte”, traz consigo um lacônico mau-agouro. O preto luxuoso instantaneamente se converte em preto fúnebre, macabro. Por livres-associações, chegam-me a mente faixas anarquistas alertando para o mal da moda, do luxo, do capitalismo. Faixas anarquistas porque é o novo Lucky Strike, mas poderiam ser comunistas caso fosse um Marlboro: não faz nenhuma diferença. Nem o atraente designer nem o cadáver me comovem. Não compro a felicidade que uns querem me vender, assim como não me assusto com a morte da qual outros querem me salvar. Abro a carteira e tiro outro: no mais, é um bom cigarro.
“Quem não deve não teme” é uma máxima que ainda hoje permeia o nosso senso comum. Devido a ela, mais precisamente ao seu espírito em qualquer letra que se incorpore, é que se atribui certa culpa ao homem paranóico pelas suas paranóias. Sua origem está no conceito judaico de pecado, bem como no de responsabilidade das éticas clássicas gregas, e vem subsumida no conceito de livre-arbítrio comum a ambos. A verdade, sabe a psiquiatria e a psicologia atual, é o inverso: não é porque se sente culpado que o homem paranóico desconfia, mas porque desconfia é que passa a se sentir culpado. Quem sofre de síndrome paranóide costuma desconfiar das coisas que lhe são mais caras: uma mulher que preza a fidelidade e zela pelo matrimônio pode vir a desconfiar que os outros a julguem adúltera ou “oferecida”. O problema – e isso os homens sãos parecem incapazes de compreender – é que os paranóicos desconfiam de si mesmos. Influenciada pela opinião geral e pela máxima supracitada essa mulher irá encontrar em fatos insignificantes do seu passado indícios desproporcionais de sua culpa: certa vez ela achou um homem bonito e não conseguiu disfarçar seu vislumbre; doutra feita foi “cantada” e, embora reta em seu pacto conjugal, não deixou de se alegrar espontaneamente com a vaidade satisfeita. Fatos humanos e inevitáveis que aos olhos do paranóico ganham nova dimensão e ofuscam a verdade. Essa mulher, então, sentindo-se culpada não passaria a se comportar estranhamente para com seu marido até que esse “percebesse” o motivo de sua estranheza? “Quem não deve não teme”.
Outro exemplo, um homem de caráter correto e que age moralmente não com interesse de aparentar algo, mas em virtude de seus princípios éticos, pode, se acometido pela paranóia, encontrar na memória ocasiões em que exibiu publicamente suas ações a fim de elevar um pouco o seu ego e devido a isso passar a acreditar que o propulsor primeiro dessas ações não foi os seus princípios, mas o interesse pela fama e reputação. Em seguida, como é próprio ao ruminar incessante dessa síndrome, esse homem pode passar a “descobrir” interesses ocultos e dissimulados nas demais ações, até mesmo naquelas cuja mola propulsora fora de fato o imperativo de sua índole – suposição para efeito de argumentação, sem entrar na questão da possibilidade real de tal tipo de ação. Como se comportaria um homem assim atormentado por tais pensamentos em suas próximas ações? E sempre que se comentasse a respeito da incorretude moral de se praticar uma ação boa visando outra coisa que não o próprio bem, o nosso homem não exibiria um sinistro olhar que o “entregaria” completamente? Como esses mantos de reflexão, colocados uns sobre os outros, não turvariam a consciência desse pobre homem e tornariam a sua existência culpada e miserável? “Pronto!”, julgaríamos revelado, “sua desconfiança não é gratuita”. No paranóico, a verdade sobre si mesmo é devastada pela mentira de sua doença.
Esse mal que, segundo Freud, nenhum homem mais foge na nossa cultura possui dupla causa. O tratamento de sua causa química está nas mãos da medicina psiquiátrica que já tem obtido resultados bastante favoráveis na elaboração de medicamentos. A outra causa, está em nossas mãos, homens da cultura, e consiste em não mais prestar ouvidos a filosofias velhas e seus velhos preconceitos. Na atualidade científica, para a qual, se a liberdade não é uma inteira quimera, é algo bastante limitado e sempre restringido pela causalidade natural em que nós, seres naturais, também estamos submetidos, os moralistas procuram defender a idéia de que o superego é indispensável para que não nos dissolvamos na mais horrenda perversão e de que, embora não possamos o satisfazer plenamente, ainda necessitamos dele como um racionale e faculdade de orientação sem o qual a vida perde todo o sentido: Tudo isso é uma grande petição de principio. O preço que o superego nos cobra é alto demais para o id que mais fundamentalmente somos e embora eu não possa – contrariamente ao que pensam os ingênuos – me desfazer inteiramente de todas as amarras morais que a minha educação enraizou até o mais profundo cerne do meu sujeito constituído, posso, assim como fizeram Montaigne e Nelson Rodrigues, Nietzsche e Raul Seixas, contribuir com um pequeno passo – passo esse dado por esses homens e que fizeram com que minha sociedade fosse bem mais suportável que as suas – para a metanóia e libertação do homem.